As entidades formadoras devem transcender o mero treinamento funcional no Programa de Aprendizagem, defendendo uma formação integral que una técnica, ética e humanismo, tendo o instrutor como mediador em ambientes que estimulem a autonomia e o pensamento crítico do aprendiz.
No âmbito do Programa de Aprendizagem, instituído pela Lei nº 10.097/2000, é comum a percepção de que o processo formativo se resume a ensinar o jovem a executar funções específicas demandadas pelo mercado, como fazer planilhas de excel, seguir procedimentos ou dominar ferramentas técnicas. Essa visão, contudo, é redutora e descaracteriza o sentido legal, pedagógico e humano da Aprendizagem. A legislação brasileira não estabeleceu o programa com o propósito primário de suprir necessidades imediatas de mão de obra, mas sim de garantir ao jovem uma formação técnico-profissional metódica, o que implica um processo educativo estruturado, progressivo e orientado ao desenvolvimento integral do indivíduo. Quando a Aprendizagem é compreendida apenas como mero treinamento funcional, ela perde sua razão de ser enquanto política pública.
A distinção entre treinamento e formação é crucial. Treinar alguém para uma função é um processo centrado na tarefa, na repetição e na padronização, visando o desempenho imediato e ensinando o “como fazer” de forma direta. Nesse modelo, o erro é frequentemente visto como falha, o tempo como custo, e o aprendiz, como um recurso produtivo. Formar um profissional, por outro lado, transcende o desenvolvimento de habilidades técnicas. Implica cultivar formas de pensar criticamente, tomar decisões éticas, relacionar-se de maneira construtiva, assumir responsabilidades e compreender o significado social do trabalho. A técnica permanece essencial, mas deixa de ser um fim em si mesma e se torna um meio para a resolução de problemas complexos e para a ação consciente no mundo profissional.
A própria exigência da legislação da aprendizagem de articulação entre teoria e prática reforça que o trabalho do aprendiz não pode ser reduzido à execução mecânica de tarefas. A prática só adquire caráter formativo quando está intrinsecamente ligada à reflexão, à orientação e a uma progressão planejada de complexidade. Ensinar apenas a função pode gerar produtividade de curto prazo, mas falha em formar um indivíduo capaz de aprender continuamente, adaptar-se a novos contextos e construir uma identidade profissional sólida. Por essa razão, o papel do instrutor se configura como o de um mediador de desenvolvimento, e não apenas um treinador técnico. Ele é o agente que cria as condições para que o jovem compreenda o que faz, o porquê de suas ações e como pode evoluir a partir de sua experiência.
Para que a formação seja integral, o ambiente de Aprendizagem deve ser humano antes de ser técnico. O desenvolvimento profissional é um fenômeno que engloba dimensões afetivas, sociais e cognitivas. Um ambiente que valoriza o pertencimento, o reconhecimento e a segurança emocional permite que o aprendiz se sinta à vontade para errar, perguntar e tentar novamente, elementos cruciais para a aprendizagem profunda e significativa. Um espaço puramente técnico, focado apenas na tarefa e na cobrança de resultados, pode gerar obediência, mas dificilmente estimula a autonomia e a construção de conhecimento.
Do ponto de vista cognitivo, o conhecimento não é simplesmente transmitido, mas ativamente construído pelo sujeito a partir de sua interação com o meio. Aprender efetivamente implica enfrentar situações que desafiam os esquemas mentais existentes, provocando um desequilíbrio cognitivo que impulsiona a busca por novas soluções. Quando o ensino se limita a mostrar o passo a passo correto, elimina-se o desafio e, consequentemente, a possibilidade de construção real do saber. É por isso que a formação deve se apoiar em desafios, estudos de caso e problemas contextualizados que exijam do aprendiz a organização de dados, a tomada de decisões e a comunicação de resultados. A ferramenta técnica, nesse cenário, adquire sentido porque surge como resposta a uma necessidade concreta, e o jovem aprende não apenas a usá-la, mas a entender seu propósito e contexto de aplicação.
Em suma, a formação profissional no contexto da Aprendizagem exige a integração de um ambiente humano e acolhedor, desafios cognitivos que estimulem a construção ativa do conhecimento e experiências significativas de resolução de problemas. Essa abordagem é plenamente coerente com a finalidade legal do programa. Formar um profissional significa prepará-lo não apenas para o posto de trabalho atual, mas para o mundo do trabalho em sua totalidade, com suas constantes mudanças, exigências e complexidades. O instrutor, ao compreender que seu papel é formar pessoas capazes de se tornarem profissionais autônomos, transforma sua prática: a aula se torna uma experiência de aprendizagem, o jovem é reconhecido como sujeito em desenvolvimento, e a técnica se estabelece como um meio para um fim maior. É nessa perspectiva que a Aprendizagem cumpre sua função social, pedagógica e humana, conforme preconiza a Lei 10.097.